Poesias

Desterro Nunca Morreu

1
O verão da minha terra
Nunca me saiu da mente
Nele um degelo gemia
E por dentro me esvaia.
2
Degelo dos meus contrastes
Que cedo vieram ao mundo
Que me queriam em degredo
Num calabouço profundo
3
Em criança vi meu pai
Tombar na vida e ficar
Ajoelhado e impedido
De somente trabalhar
4
Até mascate ele foi
Para ganhar um trocado
Dava pena vê-lo assim
Tão inteligente e jogado
5
No grave chão do mercado.
Até que mamãe assumiu
Com indisfarçada coragem
O qu’ele não conseguiu.
6
Meus projetos de criança
E mesmo de adolescente
De ser um dia doutor
Foram jogados p’ra frente
7
Para um futuro distante
Um emprego me levou
E minha terra querida
Já não via, se afastou.
8
Tão longe da minha gente
Sofrendo assédio e porrada
De gente que me odiava
Mas eu sozinho rezava
9
Esperando um bom momento
Para dali escapar.
Até que esse dia veio
Um amigo me amparar
10
Que já era bem senhor
Me deu a esperada mão
Casado com santa flor
Levantaram-me do chão.
11
Essa família me deu
O estudo que hoje tenho
E também um aposento
De velhice que hoj’enfrento.
12
Hoje, de longe, namoro
Minha Desterro adorada
Do Cambirela onde moro
De sua crista intocada.
13
Meu degelo é mais ameno
Meu sofrimento é menor
Não me abandone Desterro
Nunca mais me deixe só.

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