O Sul, parece, nasceu dentro dessa Desterro de açoriana descendência que, nos dias de hoje, abriga todo tipo de pessoas. São indivíduos que vem para deixar ou para buscar. O burburinho do centro é pontilhado por gente gritando palavrões, mas também declamando poemas. Nas noites chuvosas de inverno, o frio do Vento Sul ainda provoca o aparecimento de bruxas. A cidade não tem mais cheiro de mar. Por outro lado, o pôr do sol dourado dá um jeito de ornamentar as casas de ricos e de pobres com a mesma cor suntuosa. No centro, a correria começa cedo e vai crescendo até encerrar o expediente da cidade.
Honestos e farsantes sempre à espreita do ganho diário em meio às caixas de som nas portas das lojas, um costume que veio de fora: a caixa que não se encaixa. Gente apressada para vender, comprar ou alugar; para fazer da cidade a matéria prima do seu trabalho. Falsários vendem Desterro diversas vezes por dia; as atividades estão disponíveis ali; é só inventar significado a elas.
Não raro, o desespero bate na cabeça de quem estava por um fio na obrigação da tarefa diária. Na confusão perde-se a consulta do médico, o ônibus, a oportunidade da venda, o Uber, o encontro, a compra, o aluguel. Um caos que nunca se acostuma nos ouvidos do ilhéu. A todo momento a polícia prendendo, obrigando e levando, às vezes, o que não era para ser levado; um mané raiz, por exemplo, um tal Dalci, que tem gravado na certidão nascimento o nome Darci, que sempre morou no Rio “Velmelho”.
Mas o centro, o centro é um palco de sombras que joga com o inconsciente de todos. É nele que a verdade se cria para que se busque aquilo que continua no amanhã da velha e amada Desterro, que ainda pulsa… e pulsa…
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