Logo após o almoço fui tomar um café no Avenida, quando uma cigana baixa e bonita me abordou para oferecer um ingresso do show de flamenco que estava acontecendo na cidade. Educadamente, mostrei-me desinteressado, mais frio que os doze graus daquele momento. Sem se perturbar, a mulher ofereceu o ingresso aos demais frequentadores do Avenida que, igualmente gelados, negaram sequer olhar para os bilhetes que a mulher exibia nas mãos. “Era a última oportunidade”, dizia a mulher em espanhol, do alto de uma singular dignidade. Trajando uma saia estampada rodada até os tornozelos, eram visíveis as sapatilhas pretas, de salto médio com tirantes trançados sobre o peito dos pés. A voz era de um jeito que eu nunca vira em ninguém, meio gutural e muito bem posta, com elementos de rouquidão sensual que suavemente chamavam a atenção. Além disso, usava uma jaqueta preta de toureiro drapeada com strass azulados e uma rosa vermelha nos cabelos muito negros. No meu imaginário, aquela flor quase emitia uma voz, igualmente rouca, representando o amor, a paixão e a fidelidade de uma mulher.
Senti um frio na espinha ao conceber que a arte se faz em qualquer lugar que se queira fazer. Os olhos negros da mulher se impunham como um canhão na guerra, emprestando àquela abordagem uma apresentação cênica genuína. Verdadeiramente, a mulher já estava em cena. Ao sair do estabelecimento, parou na porta, fez meia volta como em um passo doble, e veio em minha direção. Pegou minha mão e nela depositou o ingresso com a recomendação para eu estar no show daquela noite. Puxei a carteira do bolso interno do paletó para pagá-la, mas ela sumiu sem levar o dinheiro.
Agora eu estava ferrado, pois tinha uma prova acadêmica naquela noite e não havia para transferi-la. Passei o resto da tarde incomodado com aquilo. De certo, eu tinha cara de otário, para que uma espertalhona qualquer me tirasse do eixo. Vendedores são abusados quando querem vender. Sempre me foi dito que, em São Paulo, tem tanta gente querendo comprar qualquer coisa, que ali se vende até cocô em lata. O negócio, com alguns consumidores, não é a utilidade do produto, mas apenas comprar e pagar. Refletindo melhor me excluí desse grupo de pródigos porque comprei o ingresso, mas não paguei.
Comentando com um amigo que pertencia ao corpo de baile do Teatro Guaíra, ele pegou o ingresso na mão e disse que sentiu um arrepio da cabeça aos pés. Olhou diretamente em meus olhos e disse que eu deveria ir ao show para atender a um chamado que me fora feito. Agora eu não poderia mais resistir a tanto enxofre em meu destino. Fui para casa e decidi me arrumar para ver no que dava aquela doideira insana.
A apresentação ia ser numa bem recomendada Boate Marrocos localizada em cima de uma farmácia na praça Zacarias. Cheguei cedo, não tolero imprevistos, e logo ocupei uma mesa porque agora eu estava enfezado. Queria ver o fim da história, desse no que desse. Se o estupro era inevitável, o jeito era se divertir. Campari com água tônica foram quatro doses e mais três sucos de tomate porque era a única bebida sem álcool que se servia naquele inferninho caro e sofisticado. Muito próximo de começar o show, um garçom (que hoje são chamados de bartenders) me perguntou se eu topava dividir a mesa com um senhor que chegara naquele momento. Nada achei inadequação naquilo e aceitei a proposta, desde que o homem dividisse o valor da mesa. Chegou-se então um senhor que, no lusco-fusco da boate, não reconheci. Porém, ao ver seu rosto iluminado pela chama do isqueiro para acender um cigarro, reconheci imediatamente o professor que deveria estar aplicando minha prova na faculdade. Ao inquiri-lo sobre o compromisso dele na escola, deu uma risada sem me falar uma palavra. Somente encolheu os ombros num gesto quase penitencial e abriu os braços com as palmas das mãos voltadas para cima. Então, compreendi que ele também não sabia como fora parar ali.
Seis moças e um bailarino artisticamente se apossaram da pista e o espetáculo vibrante começou. A casa estava lotada para ver um grupo de balé vindo da Andaluzia, diziam, para apresentar um sapateado picado, acompanhado apenas por um violão, que chamavam de la guitarra. Fiquei alucinado e não parava de sentir uma espécie de incômodo pelo corpo inteiro ao som das sapatilhas de salto de aço, marcando o ritmo no piso de madeira da boate. Os compassos sincopados com as palmas e mais o vigoroso movimento de braços e mãos dos bailarinos me deixavam quase louco. Minha vontade era pular no meio do palco e dançar para atender a uma espécie de exigência feminina que vinha de dentro do meu já destroçado espírito. Nisso, veio voando em minha direção, do centro do salão, um xale vermelho. Se eu acaso o pegasse, estaria aceitando o assédio sutil de alguém para me ficar de acompanhante. E então, abracei o capeta, isto é, o xale. Segurei nas mãos do meu anjo da guarda, baixei o facho e me sentei com o xale em volta do pescoço, porque já estava de pé fazendo umas mesuras vergonhosas como se houvesse incorporado algum palmero andaluz.
Nisso, alguém pediu um Cuba Libre, uma bebida libertária que fora trazida de Havana para cá depois que El Comandante desceu a Sierra Maestra em 1959 para assombrar a vizinhança. Quem pedia era a cigana, já sentada ao meu lado exibindo as lindas pernas pela racha da saia de babados. Aquela mesma mulher que me oferecera o ingresso no Café Avenida. Fomos terminar a noite no hotel onde o grupo estava hospedado. Um dia depois, soube que a trupe viajou para cumprir uma turnê em Buenos Aires. Por pouco não me meti dentro do avião para ir junto.
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