Contos

Luz e Libertação

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra.” Paulo Freire³

Dois amigos, Chiran e Jedi Dias, haviam convalescido no mesmo hospital e, ao saírem dali, milagrosamente, viram brotar diante dos próprios olhos uma paisagem a que não estavam habituados. Na extensão de uma cidade média, estavam construídos ilimitados monumentos de infinitos tamanhos. Eram obras construídas para perpetuar a memória de pessoas relevantes na história, cujas dimensões, estética e imponência despertavam a admiração de turistas. Viam-se ali estátuas, obeliscos, bustos e edificações gigantescas. Aquilo era um verdadeiro museu ao ar livre.
Ambos ficaram sabendo que, quanto maior houvera sido o desempenho em vida, de maior beleza seria o monumento ao homenageado. Sendo grande leitor de obras clássicas, Chiran quis saber do monumento em homenagem a William Shakespeare, mas teve um sobressalto. Era um obelisco pequeno e de quase nenhuma expressão diante de tantos outros. O maior escritor do ocidente ali não era devidamente reverenciado. Soube que o bardo⁴ se apropriou de cenas e textos escritos por George North, uma figura do século XVI, que foi embaixador da Suécia e esteve presente na corte da rainha Elizabeth I⁵ . Esse diplomata era primo de Thomas North, que serviu de inspiração para Shakespeare ao traduzir para o inglês a obra Vidas Paralelas de Plutarco⁶ . Soube também que William era chegado a fumar uns bagulhos no desfrute do seu indefectível cachimbo.
O desconcertado Chiram foi observando que os maiores e mais visitados monumentos eram de orientais. Como era brasileiro, teve a curiosidade de procurar o nome de Joaquim Maria, mais conhecido pelo nome de Machado de Assis. Achou-o numa solitária viela abandonada com a lápide: “Velho Bruxo”, numa alusão a muitas de suas perturbadoras narrativas, feitas de propósito para deixar oscilantes os leitores, como em Dom Casmurro. Refletiu que essa categoria de reconhecimento jamais iria contribuir para que o monumento do maior escritor brasileiro um dia crescesse. Desse modo, lembrou que os brasileiros nunca lidaram bem com os seus heróis. Então, ele sugeriu ao amigo:
— Vamos procurar o monumento de Albert Einstein⁷?
Outra decepção. Ao invés de um vistoso obelisco em homenagem ao gênio da física moderna, o homem deparou-se com uma abandonada placa de granito com uma inscrição colocada ali por Robert Oppenheimer: “Gênio”. De fato, Robert Oppenheimer tinha um grande respeito por Albert Einstein, e em um elogio público após a morte do físico, em 1955, Oppenheimer escreveu que os “físicos perderam seu maior colega”. Naquele momento, o arquiteto se iluminou.
Ainda descrente do que estava descobrindo, convidou, mais uma vez:
— Vamos ver a homenagem ao grande Pitágoras?
Ambos descobriram, junto a um modesto monumento, uma réplica de uma placa babilônica de 3.700 anos, ali colocada por um anônimo com a mensagem: “Desculpe, Pitágoras!⁸” Isso porque, muito antes de Pitágoras, os babilônios já haviam descoberto as relações existentes em um triângulo retângulo., descritas pelo matemático em seu famoso teorema, tornando-se sua contribuição mais famosa e duradoura para a matemática.
Inconformado, o homem propôs pela última vez:
— Vamos visitar o maior monumento que se possa encontrar? Preciso ver quem é o titular da maior homenagem construída aqui. Se existir o obelisco que imagino, então eu estive errado durante toda a minha vida.
— E de quem se trata? – perguntou Jedi Dias.
— Aquele que nasceu em longa data no oriente, foi amado, odiado, morreu e ressuscitou infinitas vezes para a libertação dos homens.
Não foi difícil encontrar o que procuravam. Com muitos visitantes ao redor, o homem se deparou com uma enorme edificação sobre rochas beijadas pelas ondas de uma bela faixa de mar, que ele não sabia como aparecera ali. Na fachada, gigantesca, duas grandes colunas cilíndricas serviam de ornamento e sustentáculo da abóbada da entrada de uma câmara natural na rocha, ali aparecida pela ação do tempo. As colunas eram iluminadas com intensa luz vermelha em suas bases. O pináculo de cada coluna era absurdamente branco e reluzente. Da entrada da enorme gruta, vinha uma luz suave com coloração puxando para o vermelho. Podia-se dizer não haver propriamente uma porta, senão um vão monumental, permitindo o livre acesso das pessoas, sem que houvesse alguém a lhes exigir credenciais. Inacreditável como as nuances das cores daquela revelação eram nítidas, a despeito do dia claro. Até aquele momento, os recém-chegados não conheceram o sono e a noite. No restante da fachada, o monumento era como se fosse uma catedral com pontiagudas torres apontando para um céu azulado com resplandecentes tons de prata reluzente, acabando por se transformar em branco, à medida que ganhavam altura, até se perderem de vista num branco total e sem fim.
Frequentada por uma multidão de homens e mulheres, jovens e velhos, alguns envergando opas negras e brancas, a construção demonstrava ter espaço suficiente para acomodar mais da metade da população do planeta. Perguntado a respeito do significado das cores das vestimentas, um daqueles visitantes, de muita idade, esclareceu:
— Paramentas usadas num local como esse, querem falar de dois elementos adjacentes aqui encontrados: a humildade e a perfeição. Paramentas brancas falam da visão límpida de algo a ser reverenciado aí dentro. Já as pretas se referem às pessoas envolvidas com o que está aí dentro. Se o branco remete a um conceito de pureza e pacificação, o preto quer proclamar o estado de precariedade intelectual em que se reconhecem. “Só sei que nada sei”, lembram? Isso, porque, por maiores consagrações que possam merecer, consideram-se incapazes de conhecer todos os contornos do verdadeiro conhecimento. Uma é a dimensão esperançosa do sonho possível e resplandecente da língua no meio de todos. Outra, é o enfrentamento sem descanso da realidade vigente para entregar às nações, pelo respeito ao usá-lo, o mais legítimo e intocado idioma.
Ao adentrar o gigantesco memorial, então se descortinou algo jamais pensado e merecedor de tantos elogios: uma infinita biblioteca com as obras de todos os autores e de todos os tempos. Viam-se espaços imensos nominados nas respectivas entradas presbiterais: Biblioteca de Nínive, Biblioteca de Alexandria, Vila dos Papiros, Biblioteca de Pérgamo, Biblioteca da Universidade de Nalanda, Casa da Sabedoria, Biblioteca Imperial de Constantinopla, Biblioteca Apostólica Vaticana, Biblioteca Palafoxiana, Real Gabinete Português de Leitura. Ali, quem reinava no cavernoso silêncio era o todo-poderoso livro. O mesmo ressuscitado, depois de tantas vezes, ao ser supliciado com seus seguidores, nas fogueiras acesas pela incompreensão das trevas.

³Paulo Reglus Neves Freire (1921 – 1997) foi um educador e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira. Fonte: Wikipédia

⁴Um bardo, na Europa antiga, era uma pessoa encarregada de transmitir histórias de forma oral, cantando as histórias do seu povo em poemas recitados. Era simultaneamente músico, poeta, historiador e acessoriamente moralista. Fonte: Wikipédia.

⁵Elizabeth I (1553 – 1603), cujo reinado foi de 1558 a 1603. Fonte: Wikipédia.

⁶Referência em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-autoria-das-obras-de-william-shakespeare.phtml. (N. do A.)

⁷Albert Einstein, físico teórico alemão (1879 – 1955). Fonte: Wikipédia.

⁸Pitágoras viveu entre 570 a.C. a 496 a.C. A notícia da existência de uma placa com a afirmação “Desculpe” é atribuída ao Prof. Dr. Luis Fábio Pinho, Law/Eng/Ai Prof., General Business Manager, MEng, PMP, MSc, LLM, DSc, ProfMBA, PhD, Dr, MD, PMO.
Fonte: https://www.linkedin.com/in/luisfabio/
Acesso em 17.05.2025.

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