Entrevista Com a Ensaísta Luciene Fontão

Doutora em Literatura. Mestre em Linguística Aplicada ao texto e ao ensino. Licenciada em Letras - Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa. Natural de Florianópolis/SC.

Pergunta 1: Onde, quando, por qual razão e em que momento da sua vida tornou-se um escritor?

Luiz Carlos de Sousa: Quando ainda pré-adolescente, na Florianópolis de 1957, eu era solicitado para escrever cartas para quem não sabia escrever. Isso suscitou em mim um sentimento de solidariedade na direção daquelas pessoas. Naquele momento, lembro, eu descobri o que queria da vida: escrever.

Pergunta 2: O que move o escritor a escrever um romance?

LCS: Tenho uma ancestral necessidade de contar minha história ao mundo e que ressoe como um grito de libertação pessoal. Sinto uma forte necessidade de expressar minhas ideias, crenças e críticas sociais através de uma narrativa ficcional. Há em mim o desejo de envolver meu leitor em uma trama cativante, com personagens memoráveis num ritmo envolvente. Nada do que está em meus textos é desprovido de intenção muito bem pensada.

Pergunta 3: Quando escreve e planeja um livro, como surgem os personagens e o tema?

LCS: Costumo planejar com muito cuidado os meus romances, entretanto o tema já está em minha mente aguardando a vez de respirar. Busco inspiração em minhas próprias vivências, emoções, desafios e relacionamentos para criar personagens com profundidade e autenticidade. Abordo cada cena como se fosse construir um roteiro de filme. Para planejar, uso cadernos para os manuscritos, computador e blocos de notas. Tenho como base os ensinamentos de Robert McKee, em sua obra “Story”. Nas histórias épicas, policiais e de ação, costumo seguir o padrão da obra “Monomito” de Joseph Campbell, bem como de Christopher Vogler e sua “Jornada do Escritor”. Nas histórias de amor, sigo o padrão tradicional dos três atos aristotélicos. Tenho diversas histórias na fila para contar. Meus personagens surgem simultaneamente com o tema gestado em minha mente. Tenho a tendência de criá-los precários e dar a eles iluminação com o arco de personagem que vou criando durante sua jornada romanesca. Por uma questão cultural, gosto de validar personagens desprezados no meio social. Meus temas emergem de uma questão que esteja me incomodando profundamente. Seja questão social, política, filosófica, emocional ou espiritual. Não é raro eu ficar impactado por eventos atuais como injustiças sociais, tendências culturais ou dilemas morais, que acabam se tornando núcleos temáticos de minhas obras.

Pergunta 4: Você se considera um escritor engajado, do seu tempo? Como definiria seu fazer literário: moderno, romântico, realista ou contemporâneo? Por qual razão? O que o move a escrever assim?

LCS: Vejo-me como um escritor engajado no meu tempo. Meu estilo é inconfundivelmente realista. A rigor, não tenho compaixão do meu leitor. Quero tirá-lo de sua zona de conforto para que também reflita a respeito do que escrevo. Penso que a razão desse meu estilo vem da minha infância precarizada que fez, muito cedo, contato com o mundo real, quase sempre sem compaixão de ninguém. Escrevo dessa maneira para construir um mundo onde todos sejamos solidários na jornada de nossas vidas.

Pergunta 5: Em "Não, me diga adeus", o título remete a outro mundo não real? A ficção traz a religiosidade em sua composição? Qual seria a visão da vida, da morte e do amor em suas obras? A ficção transpassa a vida real ou simplesmente busca representa-la?

LCS: O mundo de “Não, não me diga adeus” é uma realidade corriqueira verificada no meu dia-a-dia. Em resumo, o título é um apelo desesperado contra uma despedida final. Ele enfatiza a intensidade da ligação entre os personagens e a profunda dor que a separação causa. Nesse sentido, o “adeus” pode ser visto como o fim de um relacionamento, de uma fase da vida causada pela própria morte. Essa ficção não aborda a religiosidade das pessoas, senão a valorização do pragmatismo de cada personagem. São vidas comuns, mas que se revestem de brilho e respeito. Minha visão de vida compreende o período desde em que nasci até o dia que morrerei. Enquanto eu estiver no mundo, tudo farei para viver de acordo com os padrões sociais e culturais; e disso não tenho como escapar. No entanto, procurarei viver minha vida da maneira mais decente e solidária que puder. Acredito na bondade das pessoas como sua principal virtude. A morte é uma realidade que não mais me assombra. No dia em que ela me visitar, vou olhá-la de frente e com dignidade. O amor é uma virtude que enobrece o ser humano para torná-lo sublime. Creio no amor entre as pessoas. Há um mundo, nesse vasto universo, em que o amor é plenamente praticável. Minha ficção transpassa minha vida pessoal. Minha ficção, contudo, é a minha visão de mundo, para o bem ou para o mal.

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