“O medo é o pai da crença.”
Olavo Bilac ¹
Proprietário de bem frequentada casa noturna no Morro da Caixa-d’água, Laudelino Inocêncio Coelho mantinha a ordem no estabelecimento na marra. Apelidado Barrasco desde criança, era um afrodescendente criativo, muito embora seu diminuto bigode em nada lhe socorria. Com quase dois metros de altura e uma voz troante, jamais encontrou quem se aventurasse a contrariá-lo. Contudo, fazia-se dócil a maior parte do dia. Possuía habilidade natural com os mais mansos e também com diversos instrumentos musicais, pois deles extraia sons de encanto. Sem embargo, o instrumento que o deixava emocionado era o saxofone que, depois de um inofensivo trago, ia às lágrimas com facilidade e não sabia explicar essa emoção. Diziam que era a lembrança do pai que também fora músico. Filho de Santo num congá do continente, Barrasco detestava quando tinha arremedos de intuições, como a que teve naquela manhã. “Logo hoje me vem um alerta de Mãe Malvina pra eu tomar cuidado com um acidente de carro? Até aceito a profecia, se for para outro dia. Porém, hoje não! Estou de agenda cheia, minha mãe…”
Era uma noite de verão e Laudelino havia trabalhado mais de uma semana para fazer acontecer o show daquela noite. A casa estava lotada e fazendo a alegria de muita gente. Casais dando volta no salão ao som de Se Todos Fossem Iguais a Você na voz da competente Elizeth Cardoso, quando aqui passou para visitar a amiga Neide Maria Rosa. Laudelino sorria muito, apesar de estar incomodado com a suspeita de que algo daria errado ainda naquela noite de gala. Com a intenção de confrontar sua crise interna, Laudelino fizera-se bonito dentro de um terno preto, camisa preta, suspensórios vermelhos e um laço branco de borboleta feito gravata. Isso lhe realçava o sorriso, que era um atributo que sabia explorar sem esforço. Os cabelos perfumados com a loção Royal Briar legítima que chegara do porto de Santos, encobriam os grisalhos que já despontavam nas têmporas e no bigode. A propaganda radiofônica da loção prometia garantir, além de beleza, brilho e saúde aos cabelos, e um perfume que deixava saudade.
Barrasco usava por dentro um colar, uma guia, que lhe chegara sob encomenda, de um famoso terreiro de Salvador. Era um artefato feito por um pai de santo de nome Miguel Casca Grossa, durante o fragor de uma sessão intensa de descarrego que durou quase uma noite inteira. A autenticidade da peça sempre foi atestada pela própria esposa, Jurema Catimbó, que era baiana e estava presente à mencionada reunião trajando elegante vestido azul-marinho todo drapeado. Sessão que lhe ficou para sempre na memória porque, em dado minuto ritualístico, voando perigosamente, veio do meio do salão um punhal atirado pelo guia incorporado ao corpo de mestre Miguel, para cravar no piso de madeira do salão e entre as pernas de Catimbó, como ainda hoje Jurema é conhecida. A mulher, acostumada com as bizarrices de uma sessão de umbanda, ficou assustada, porque quase perde a vida na ponta daquela arma ameaçadora. Foi entender o porquê quando lhe veio um emissário de Miguel Casca Grossa para alertar que a ninguém era permitido ali trajar inapropriada roupa da cor azul-marinho. A partir daquele dia, Laudelino abominou a cor, tão linda na pedra do anel de formatura da filha, mas que ofendia o pai ao dizer, imprudentemente, não acreditar naquelas crendices. Das contas do colar que recebeu das mãos da esposa não havia sequer uma com essa malsinada coloração.
O cachê de Elizeth já estava pago, sempre cobrava adiantado, e não havia como deixar entrar mais alguém. Na porta, uma fila que os dois seguranças não estavam conseguindo conter. Mas, lá dentro, ah! lá dentro, somente mulheres escolhidas a dedo pelo proprietário. O preço de um Cuba Libre era absurdamente alto, mas parecia que estava valendo a pena, porque ninguém arredava o pé de lá. Era obrigatório, para ingressar, que os homens trajassem terno e gravata. E isso deixava o ambiente refinado, muito embora aqueles não eram homens do bem. Conta-se que havia um presidiário que pagou uma pequena fortuna para estar lá naquela noite.
Laudelino era um homem experiente e não desejava surpresa tipo: “Polícia!” Ele previamente negociou com o delegado da cidade e o comandante da companhia de polícia a respeito do espetáculo que pretendia levar ao público. Das autoridades, Laudelino ganhou a certeza de que eles iriam proteger o show da artista festejada. A ninguém interessava manchete desabonadora da cidade no dia seguinte. Isso, desde que tudo transcorresse na mais absoluta paz. Para tanto o proprietário já havia expulsado dois serranos sem atitude, que não haviam se comportado de maneira cortês com as mulheres que viviam noite de princesas.
Naquela gafieira, se dava valor à atitude do dançarino frente a sua parceira: esperteza na hora da ação, elegância e ritmo. Na dança, o homem conduzia com atenção sua dama, e nunca o contrário. Protegendo seu par, dava a ela espaço para se exibir para ele e para o baile inteiro ao seu redor e, ao mesmo tempo, impedia uma aproximação de qualquer outro homem. Daí também a atitude de se sambar com os braços abertos, como se fosse dar um abraço, tudo no ritmo da música. A mão sempre visitando o bolso da calça, para conferir a navalha em prontidão para o ataque. As pernas não andavam lado a lado, paralelas, mas sempre uma escondendo o movimento da outra, como se estivesse praticamente andando sobre uma linha.
Mas, sempre aparece alguém que perde a noção do perigo nessas horas. Ademar, um comportado funcionário da Imprensa Oficial, ficou fascinado por uma das moças. Jurava que queria tirá-la da zona para com ela constituir família. Mas, isso era apenas o resultado das inúmeras doses de Mojito, drinque de rum que Laudelino trouxera de La Habana quando lá se apresentara num show antes de La Revolución. O bom rapaz apaixonado era um moço de cor, de baixa estatura, conhecido pelo apelido de Cotonete, em virtude do estilo do cabelo. Não era alguém que impressionasse a plateia, mas inventou de convidar a tal moça, Morgana, para dançar o som-balanço que Elizeth cantava. A moça trajava um vestido colado ao corpo cuja barra estava posta acima dos joelhos, deixando transparecer um deslumbrante par de pernas. Ela havia acabado de dançar ao ritmo de uns passos conhecidos na boemia como trança encoxada e arfava o peito de cansaço. Mas, ela nem lhe deu resposta, apenas olhou para o acompanhante e fez um gesto com os ombros para dele saber se assim o permitia.
— De jeito algum, – respondeu agressivamente o malandro. – A dama está acompanhada da minha pessoa, está compreendendo?
Ao que Ademar imprudentemente retrucou:
— Se ela não dançar comigo, não dança com mais ninguém essa noite.
Ao decretar tal deliberação pareceu querer transformar sua simpática e inofensiva cabeleira nos cabelos da Medusa, cheia de serpentes vorazes. Estava estabelecido o conflito da noite. Era tudo o que Laudelino não precisava. Na cabeça do par de Morgana só cabia uma coisa: uma surra em Ademar. Para começar desfechou uma rasteira no desavisado e estatelou-o de encontro às mesas na beira da pista. Com toda má vontade, puxou Ademar pela gravata e colocou-o de pé no meio do salão. Ninguém percebeu, mas incrivelmente lhe brotou nas mãos uma navalha aberta e já posicionada no pescoço do moço de bem. Se esboçasse a mínima reação, Cotonete seria sangrado ali diante de todos com a atenuante de legítima defesa da honra.
Laudelino pulou em cima dos dois e ordenou que a luta parasse ali. Ademar foi levado às presas para a rua sem dar um pio. Um dos seguranças deu-lhe um pontapé na bunda e mandou-o dormir. Elizeth Cardoso correu para trás do palco e dali já estava na rua para pegar um táxi e ir para o recém-inaugurado Oscar Palace Hotel². Parecia ter experiência em desaparecer nessas horas críticas. Para melhor colocar ordem na casa, o proprietário emitiu um comando:
— Vamos colocar ordem no recinto. As damas se posicionem a minha direita e os cavalheiros a minha esquerda. E dizia isso apontando o lugar de cada um, como se fosse um inspetor de alunos.
Incrível, mas todos obedeceram. Até os músicos e garçons. Pudera, nominou os frequentadores de sua precária boate de damas e cavalheiros… E foi a sorte. Exatamente nesse momento uma caminhonete, que descia a Avenida Ivo Silveira em excessiva velocidade, desgovernou-se e voou para invadir a casa noturna passando pelo meio do salão. Ninguém foi atingido porque Laudelino, numa intuição extraordinária, separou as pessoas e deixou um corredor livre. E foi por ali que o carro desgovernado passou. O veículo entrou por uma lateral da casa e saiu pelo outro lado. Houve pânico, gritos e correria, mas ninguém se machucou. Somente Laudelino passou mal e começou a vomitar. Dali foi levado para o hospital com crise de pressão alta agarrado ao colar de proteção que nunca deixava de usar. Foi salvo por aquela milagrosa guia de Ogum, vinda de um respeitável congá de Salvador. No dia seguinte, nem uma linha escrita na página policial de O Estado.
¹Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (Rio de Janeiro, 1865 — Rio de Janeiro, 1918) foi um jornalista, contista, cronista e poeta brasileiro, considerado o principal representante do parnasianismo no país. Foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 15 da instituição, cujo patrono é Gonçalves Dias.
²O Oscar Palace Hotel foi inaugurado em 6 de novembro de 1960, era a hospedagem favorita dos famosos que visitavam a cidade: artistas, músicos e políticos.
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