Depois de sair de uma cerimônia de premiação esportiva, um atleta conduz seu BMW pelas ruas da cidade com satisfação estampada no rosto. Ele consulta o Rolex e, muito embora sendo casado, decide se encontrar com os amigos numa boate no caminho de casa. Sua esposa e os dois filhos já devem estar dormindo. Sim, vou passar lá e confraternizar no máximo 30 minutos com a galera, por que não? Permitiu-se, portanto, extravasar sua melancólica solidão, bem como sua precária e ambígua moralidade, decorrente da corrosiva influência do dinheiro e do poder que a fama lhe dava. Aquela era uma autêntica aventura vivida nas grandes cidades, em ambientes noturnos, sombrios e marginais, como becos escuros, bares decadentes, hotéis baratos e bairros pobres. Com uma diferença, ele estava em uma boate de luxo, que tentava, em vão, mascarar semelhante precariedade moral.
Ao chegar na entrada do estabelecimento, ele é saudado por um dos valets, que lhe pede as chaves. Sem hesitar, o atleta lhe joga o molho como se fosse ele o dono da boate. A rigor, ele não era o dono, mas um dos frequentadores vips, condição que lhe assegurava algumas imunidades dentro da casa. E então o jovem homem, trajando um terno branco, com sobreposição de joias de grosso calibre, bem assim um par de tênis igualmente branco e sem meias. Essa a moda do cidadão rico na noite na qual quer se perder.
Lá dentro, ele se dirige ao bar e pede una cola de gallo, tão na moda e servido em taça larga de puro cristal. Ele não toma esse coquetel se não for na finíssima taça. A bebida, no absurdo valor de duzentos euros, era parte do charme para anunciar a todos que ele havia chegado. Flashes dos paparazzi explodiram em sua direção e imediatamente já estava cercado por três lindas mulheres; dessas que são maiores de idade e que se banham nuas no ambiente próprio e fumacento da boate.
A sedução em boates espanholas, como em qualquer lugar, envolve uma combinação de comunicação não verbal e verbal eficaz, adaptando-se ao ambiente da boate e demonstrando confiança e respeito.
Seduzido pelo charme luminoso do inferninho, o atleta se travestiu, conscientemente, numa espécie de personagem que, muitas vezes, ficam presos em situações sem saída, com um destino sombrio e inevitável. No entanto, naquela noite, o jovem atleta somente queria estar com os amigos. Isso, era o que ele pensava querer, quando ouviu uma arrrebatadora voz feminina: “Boa noite, Dani”. Então, ele chama um segurança e transmite a ele um recado. Imediatamente, as três moças são convidadas a se afastarem do gostoso. Uma delas, de pele negra igual a do atleta rico, não gostou de ser enxotada sem o aviso de delicada advertência, como era o costume. Ela juntou a “pedra” que o rapaz lhe jogou e guardou na bolsa. Naquele sutil momento, o rapaz deveria perceber que algo estava dando errado. E, quando algo parece estar errado, é porque está.
Se não quisesse proteger suas informações morais, então que protegesse as financeiras. A vida de uma moça encontrada numa boate, via de regra está motivada por diversas razões, e as pessoas que a exercem são indivíduos com suas próprias histórias e circunstâncias. Mas, o jovem estava revestido com a armadura da arrogância e da soberba. Não poderia, por conseguinte, perceber a sutileza da reação da moça desprezada por ele.
Quando chegou a hora do moço rico ir embora, como havia planejado, resolveu passar na toalete. Lá dentro, ele encontrou a arapuca armada, isto é, a moça, que estava acompanhando todos os movimentos do rapaz. E, num apelo de paixão movido pelos seguidos tragos, o romance aconteceu ali mesmo, naquele impróprio ambiente. Foi o que bastou para a alegação de relação íntima não consentida, isto é, um estupro.
Para responder em liberdade ao processo que ela moveu contra ele, o atleta teve que desembolsar € 1.500,00, que tomou emprestado de um amigo brasileiro. Por ser estrangeiro, mesmo sendo inocente, ficou encarcerado por mais de um ano em prisão preventiva.
Os depoimentos sofreram diversas versões diferentes, cinco, pelo que se teve notícia. Tudo por causa do medo da reação da esposa. Mas, não adiantou, foi chamado de mentiroso e mesmo assim ela pediu o divórcio com a guarda dos filhos imediatamente. O final do processo lhe foi favorável, depois de muito desgaste e encerramento de uma carreira atlética até então impecável.
A moça, que não convenceu o tribunal de que estava ali de passagem para apenas curtir a balada daquela noite, devolveu a “pedra” que havia guardado na bolsa.
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