Na estação rodoviária de uma pequena cidade, no meio da madrugada chuvosa, um viajante exausto e desanimado com a própria vida procura um táxi para levá-lo a um hotel. Quase ninguém no local. Contudo, um carro diferente se aproxima devagar, se oferecendo para levá-lo. O veículo, já parado à sua frente, espera-o para embarcar. No interior do carro o viajante pede ao motorista de capuz, sugestão de endereço para descansar.
— Ainda é cedo para dormir — responde o taxista. — Um homem tão distinto deveria conhecer, antes de ir para a cama, uma de nossas intensas casas de diversão.
O recém-chegado fica surpreso com a voz de uma mulher ao volante. Sabe que à meia-noite a cidade fica bipartida. As atuações das igrejas e das escolas não passam da meia-noite. Depois disso, passam a funcionar as mariposas, as ditaduras, os carrascos, as aparições e os demônios que, mesmo com o Cristo metálico pendurado no pescoço, arrancam gritos de agonia dos supliciados que ousam enfrentá-los. Mas, o apavorado viajante olha em redor de si e percebe que não está em condições de se impor. Tem que aceitar a situação, pois não está dentro de um veículo comum. Trata-se de um intimidatório veículo particular. E depois, murmura ele com os seus botões: “Quem pediu a ela uma intensa casa de diversão? Essa viagem não começou bem” -.
— Acho que entrei num veículo errado — exclamou o viajante. — Eu não tenho condições de operar sobre fatos abstratos, — murmurou com ar de quem está perto de morrer.
— Não. Este é um táxi especial. Nós transportamos todos os que estão mortos, nesta cidade. E não. Essa viagem começou muito bem — disse-lhe a mulher, contrapondo-se ao pensamento do viajante.
Com voz sentimental e firme, a mulher oferece ao viajante um anel masculino de latão, exclamando:
— Hoje é o dia do nosso noivado.
O homem congelou dos pés até a cabeça, muito embora no interior do veículo estivesse quente, abafado. Não queria contrariar a mulher, se impondo àquela situação. Em seguida, ele sentiu um odor de flores vindo da tapeçaria do carro. Depois, apurando melhor o olfato, identificou um cheiro de vela apagada. Sentiu ainda intenso formigamento nos lábios e na língua. E mais, olhando os enfeites colados no painel do veículo, ficou claro que estava dentro de um carro fúnebre. Tanto que, no porta-luvas, havia o desenho de uma caveira e a inscrição: “Funerária Vida Nova, Translado, Cremação, Funeral, Urnas e Coroas de Flores”. Estavam em dois no veículo e não era o viajante quem dirigia. Portanto, era ele, e ninguém mais, o passageiro transformado numa voz de aflição, que fazia a derradeira viagem de sua história de vida.
— Por favor. Pare, que eu quero saltar — quase gritou o viajante com sofrimento na voz.
— Não vou parar com essa chuva — disse-lhe a mulher.
— Então, me deixa na frente de um hotel. Qualquer um.
— Ainda é cedo para dormir. Um homem tão distinto deveria conhecer, antes de ir para a cama, uma de nossas intensas casas de diversão — repetiu ela a mesma ladainha de há pouco.
— Cuide da sua vida e faça o que lhe pedi — grita o viajante, visivelmente irritado e já perdendo a paciência.
— Tudo bem… Prontinho… Cemitério Santos Anjos, lote 11, quadra 21 – disse-lhe a motorista, abrindo-lhe gentilmente a porta do veículo, por trás de um dissimulado sorriso de regozijo.
— Quem é você?
— Eu sou o seu dragão – respondeu ela. — Eu sou a sua sombra. A minha escuridão é a claridade dos mortos. Os suicidas, desaparecidos antes do tempo, pagam em dobro a dor da vida.
Assombrado, o viajante achou que iria dançar nas nuvens… Encolhido, sim, ele se encolheu, penando de medo de algum castigo, sorriu à meia boca… Só enxergou a morte, ou melhor, a mulher, ao iluminar-se o rosto com a chama de um fósforo… A resposta veio com um sorriso curvo e polido de foice:
— Eu sou você, não me reconhece? Você precisa decidir se quer viver ou quer morrer. Não tente agradar todo mundo. O risco de querer agradar todo mundo é se tornar um personagem que nem você depois reconhecerá. Se você quiser ser amigo de todos, vai ter que fazer tudo. E o tudo, vai roubar de você a sua essência.
³Paulo Reglus Neves Freire (1921 – 1997) foi um educador e filósofo brasileiro. É considerado um dos pensadores mais notáveis na história da pedagogia mundial, tendo influenciado o movimento chamado pedagogia crítica. É também o Patrono da Educação Brasileira. Fonte: Wikipédia
⁴Um bardo, na Europa antiga, era uma pessoa encarregada de transmitir histórias de forma oral, cantando as histórias do seu povo em poemas recitados. Era simultaneamente músico, poeta, historiador e acessoriamente moralista. Fonte: Wikipédia.
⁵Elizabeth I (1553 – 1603), cujo reinado foi de 1558 a 1603. Fonte: Wikipédia.
⁶Referência em https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/a-autoria-das-obras-de-william-shakespeare.phtml. (N. do A.)
⁷Albert Einstein, físico teórico alemão (1879 – 1955). Fonte: Wikipédia.
⁸Pitágoras viveu entre 570 a.C. a 496 a.C. A notícia da existência de uma placa com a afirmação “Desculpe” é atribuída ao Prof. Dr. Luis Fábio Pinho, Law/Eng/Ai Prof., General Business Manager, MEng, PMP, MSc, LLM, DSc, ProfMBA, PhD, Dr, MD, PMO.
Fonte: https://www.linkedin.com/in/luisfabio/
Acesso em 17.05.2025.
Descubra outros contos de Luiz Carlos de Sousa e mergulhe em narrativas que exploram o passado, o presente e as grandes perguntas da vida.